Monserrate, a “morada encantada” que inspirou um dos maiores escritores ingleses
17 mar. 2025
Quem resiste a Monserrate, à sua beleza, à sua grandiosidade? No início do século XIX, a propriedade que ali existia pouco ou nada tinha a ver com o que conhecemos hoje, mas, mesmo assim, atraía a atenção de muitos – alguns mais conhecidos do que outros.
Lord Byron, uma das figuras mais influentes do Romantismo europeu, foi um dos que se deixou encantar por Monserrate. Tudo começou com uma viagem pela Europa, em que Byron – nascido em Londres em 1788 – partiu à descoberta dos encantos do velho continente. Passou por países como Espanha, Itália, Malta e Grécia e, claro, Portugal. Ao longo desses dois anos de viagem – entre 1809 e 1811 –absorveu diferentes culturas, diferentes costumes, diferentes paisagens, diferentes inspirações.
É esta viagem que está na origem de ‘Childe Harold’s Pilgrimage’, uma das suas obras mais conhecidas e um sucesso estrondoso na altura. Neste poema narrativo, publicado em 1812, Byron descreve a viagem de um homem que procura um novo sentido para a sua vida em terras estrangeiras. Um dos locais mencionados – e mais elogiados – na obra é Sintra. No Canto I, Lord Byron descreve-a como um “paraíso glorioso”, com “labirintos e vales”, mais deslumbrantes ao “olhar mortal” do que aquelas de que falam os poetas:
“Poor, paltry slaves! yet born midst noblest scenes /
Why, Nature, waste thy wonders on such men? /
Lo! Cintra's glorious Eden intervenes /
In variegated maze of mount and glen./
Ah me! what hand can pencil guide, or pen, /
To follow half on which the eye dilates /
Through views more dazzling unto mortal ken /
Than those whereof such things the bard relates, /
Who to the awe-struck world unlocked Elysium's gates?”
Byron faz uma referência ao Mosteiro de Nossa Senhora da Pena – local que veio mais tarde a ser comprado por D. Fernando II, que ali construiu, com a sua fortuna pessoal, o seu refúgio na Serra de Sintra, o Parque e Palácio da Pena. O poeta fala num “convento prestes a desmoronar-se”, uma vez que, nesta altura, no seguimento do Terramoto de 1755, o mosteiro que ali existia – mandado construir por D. Manuel I – estava praticamente em ruínas:
“The horrid crags, by toppling convent crowned, /
The cork-trees hoar that clothe the shaggy steep, /
The mountain moss by scorching skies imbrowned, /´
The sunken glen, whose sunless shrubs must weep, /
The tender azure of the unruffled deep,
/ The orange tints that gild the greenest bough,
/ The torrents that from cliff to valley leap,
/ The vine on high, the willow branch below,
/ Mixed in one mighty scene, with varied beauty glow”

Mas um dos locais que mais impressionou Lord Byron foi Monserrate, não pela sua imponência, mas pela sua beleza natural, mesmo que votada ao abandono. Isto porque Monserrate pouco ou nada tinha a ver com o monumento que hoje conhecemos. Façamos um resumo do que se passou: em 1789, o comerciante britânico Gerard de Visme torna-se o arrendatário da propriedade, que pertencia à família Melo e Castro. É ele que manda construir ali um edifício ao estilo neogótico, mas, em 1794, regressa a Inglaterra e subarrenda Monserrate a William Beckford, um conhecido aristocrata, escritor, crítico e político inglês. Beckford viveu ali apenas até 1796, deixando, aos poucos, que a propriedade se degradasse. Mas, enquanto isto acontecia em Portugal, Beckford construía um imponente edifício em Inglaterra – a Abadia de Fonthill – mostrando o porquê de ser “o mais rico plebeu de Inglaterra”, como era descrito nos jornais.
Em 1809, quando visita Monserrate, Lord Byron fica impressionado com o que vê – um dos homens mais poderosos do seu país tinha uma propriedade belíssima, num dos locais mais belos do Mundo, completamente em ruínas. Sem nunca mencionar Monserrate e referindo-se a Beckford como Vathek (título do seu mais famoso romance), Byron fala num “esplendor arruinado”, numa “morada encantada” que ali jaz solitária:
“On sloping mounds, or in the vale beneath, /
Are domes where whilom kings did make repair; /
But now the wild flowers round them only breathe: /
Yet ruined splendour still is lingering there. /
And yonder towers the prince's palace fair: /
There thou, too, Vathek! England's wealthiest son, /
Once formed thy Paradise, as not aware /
When wanton Wealth her mightiest deeds hath done, /
Meek Peace voluptuous lures was ever wont to shun.
Here didst thou dwell, here schemes of pleasure plan. /
Beneath yon mountain's ever beauteous brow; /
But now, as if a thing unblest by man, /
Thy fairy dwelling is as lone as thou! /
Here giant weeds a passage scarce allow /
To halls deserted, portals gaping wide; /
Fresh lessons to the thinking bosom, how /
Vain are the pleasaunces on earth supplied; /
Swept into wrecks anon by Time's ungentle tide.”
‘Childe Harold’s Pilgrimage’ é, acima de tudo, um símbolo da literatura romântica britânica, mas é também, em parte, em elogio a Sintra, este pequeno “paraíso” português.
